
Importações caem 36,7% em Itu e crescem 16,3% em Indaiatuba
Balança comercial mostra exportações praticamente estáveis nas três cidades; economista avalia diferenças entre as economias locais e possível influência do tarifaço de Trump
As importações de Itu despencaram 36,7% nos primeiros sete meses de 2026, enquanto Indaiatuba seguiu na direção contrária e ampliou em 16,3% suas compras do exterior. Em Salto, o crescimento foi de 10,6%. Do lado das exportações, entretanto, a balança comercial das três cidades apresentou pouca variação em relação ao mesmo período do ano passado.
Os dados são do Comex Stat, sistema de estatísticas de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), e consideram o período entre janeiro e julho.

Em valores, Itu importou US$ 290,5 milhões nos sete primeiros meses deste ano, ante US$ 458,9 milhões no mesmo período de 2025. A diferença representa US$ 168,4 milhões a menos em compras externas em apenas um ano.
Indaiatuba fez o movimento contrário. As importações saltaram de US$ 888,8 milhões para US$ 1,034 bilhão, aumento de aproximadamente US$ 145 milhões.
Salto também ampliou suas compras externas, embora em valores significativamente menores: passou de US$ 104,4 milhões para US$ 115,5 milhões.
Exportações ficam praticamente estáveis
O contraste observado nas importações não se repetiu nas vendas ao exterior.
Indaiatuba exportou US$ 513 milhões entre janeiro e julho de 2026, ante US$ 503,4 milhões no mesmo período do ano passado, avanço de 1,9%.
Itu passou de US$ 151,2 milhões para US$ 149,8 milhões, retração de 0,9%. Em Salto, as exportações diminuíram de US$ 124,9 milhões para US$ 124,1 milhões, queda de 0,6%.
Somadas, as três cidades exportaram US$ 786,9 milhões nos primeiros sete meses deste ano, frente a US$ 779,5 milhões no mesmo intervalo de 2025. O crescimento regional ficou próximo de 1%.
Os valores utilizados pelo Comex Stat são expressos em dólares FOB (Free on Board). Nesse critério, é considerado o valor da mercadoria no local de embarque, enquanto frete internacional, seguro e demais custos posteriores ao embarque ficam sob responsabilidade do comprador.
A relativa estabilidade das exportações, porém, esconde diferenças importantes entre as estruturas produtivas dos três municípios.
Importações de Itu caem US$ 168 milhões
O comportamento de Itu é o que mais chama atenção na balança comercial. A cidade reduziu em mais de um terço suas importações, embora tenha mantido praticamente inalterado o valor vendido ao exterior.
Para o economista Geraldo César Almeida, uma das explicações possíveis está na dinâmica das cadeias industriais. Parte dos produtos adquiridos no exterior é utilizada como componente de máquinas e equipamentos posteriormente produzidos pelas empresas.
“Às vezes, você tem que importar antes para colocar dentro da máquina ou equipamento. Então, se você sabe que lá na frente vai cair a venda, você já diminui a importação”, explica Almeida.
A retração ocorre justamente em meio às mudanças nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos e ao tarifaço promovido pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros.
Durante entrevista ao Observatório 75, Geraldo foi questionado sobre a possibilidade de o movimento das importações de Itu já antecipar efeitos das novas tarifas. O economista considera a hipótese possível, mas ressalva que ainda não há elementos suficientes para estabelecer uma relação direta.
A possibilidade levantada por Almeida está relacionada ao intervalo existente entre a compra de componentes e a fabricação e venda do produto final. Uma indústria que projeta redução futura nas vendas pode diminuir antecipadamente a aquisição de insumos importados.
A pauta externa de Itu ajuda a mostrar a diversidade de sua indústria. Entre os produtos exportados pelo município aparecem partes e acessórios de veículos, tubos e acessórios, empilhadeiras, produtos químicos, alimentos e bebidas.
Indaiatuba importa mais de US$ 1 bilhão
Enquanto Itu reduziu fortemente suas compras externas, Indaiatuba acrescentou cerca de US$ 145 milhões às importações e ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão entre janeiro e julho.
Segundo Almeida, a diferença está relacionada à própria formação industrial do município.
“Quando você olha um pouquinho Indaiatuba, é uma formação industrial diferente de Salto e de Itu. Uma cidade mais industrializada. Quando você olha lá, ela tem mais produtos e valor agregado maior”, afirma.
O economista destaca que parte relevante das importações está relacionada às cadeias de máquinas, equipamentos e veículos. Componentes comprados no exterior são incorporados aos produtos fabricados pelas indústrias.
Essa característica também coloca Indaiatuba entre as cidades que merecem atenção diante das mudanças no comércio com os Estados Unidos. Além do tarifaço sobre produtos industriais, os próximos resultados deverão começar a refletir as mudanças relacionadas à produção da Toyota.
“Vai sentir Toyota e vai sentir máquina também. Máquina por causa do Trump e Toyota por conta do fechamento da unidade”, avalia Geraldo.
Os dados disponíveis até julho ainda não permitem medir integralmente esses efeitos. O desempenho de Indaiatuba nos próximos meses poderá indicar se a estabilidade das exportações observada até agora será mantida.
Salto tem balança comercial mais equilibrada
Salto apresenta uma relação diferente com o comércio exterior. O município exportou US$ 124,1 milhões e importou US$ 115,5 milhões entre janeiro e julho.
Entre as três cidades analisadas, é aquela que apresenta maior equilíbrio entre os valores vendidos e comprados no exterior.
“Salto já é mais equilibrado. É uma pauta mais diversificada também”, explica Almeida.
A composição das exportações também difere da observada principalmente em Indaiatuba. Produtos relacionados à madeira ocupam posição de destaque, acompanhados por diferentes segmentos industriais.
Para o economista, observar as cidades em conjunto evidencia como municípios geograficamente próximos podem apresentar estruturas econômicas bastante diferentes.
“O bacana da economia são essas diversificações. Às vezes as pessoas acabam não olhando quão diferentes as cidades são, mesmo tendo uma colada na outra, praticamente conurbada”, afirma Geraldo.
Os números dos sete primeiros meses deixam essas diferenças evidentes. Indaiatuba acrescentou cerca de US$ 145 milhões às importações, enquanto Itu retirou US$ 168,4 milhões de suas compras externas. Salto, por sua vez, manteve valores muito mais próximos entre exportações e importações.
Os próximos dados da balança comercial deverão mostrar se essas trajetórias permanecerão distintas e, principalmente, em que medida as novas barreiras comerciais dos Estados Unidos e as mudanças na indústria automobilística começarão a aparecer nos números da região.





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